Livros publicadosSábado, Escritor propõe `loucura controlada' em novo livro
PAULO COELHO defende busca do `terceiro caminho', embora saiba que isso seja ainda pouco comum JOSÉ CASTELLO Entre 1965 e 1967, Paulo Coelho conheceu de perto o universo da loucura. Nesse período, ele foi internado por três vezes pela família na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio. Não houve motivo especial para essas internações, afora o fato de ele ter sido um rapaz que oscilava entre a timidez e a extroversão e fugia, assim, aos modelos vigentes de normalidade. Quando não se sabe o que fazer com a diferença, uma solução é encarcerá-la. Foi o que seus pais fizeram, decisão que os fez carregar, durante toda a vida, uma dolorosa culpa. Agora, o escritor achou que chegara o momento, finalmente, de passar essa experiência a limpo. Pensou, primeiro, numa autobiografia em moldes tradicionais, chegou a rascunhar 50 páginas, mas as jogou no lixo. Recomeçou substituindo o gênero biográfico pela ficção e distribuindo pedaços de si mesmo entre os principais personagens do livro. O resultado é o romance que o leitor terá nas mãos. Veronika Decide Morrer passa-se em Lubljana, a pequena capital da Eslovênia, onde PAULO COELHO já esteve por duas vezes: para lançar O Alquimista, em 1995, e depois para o lançamento de À Margem do Rio Piedra, em 1996. ''Mas em nenhuma das duas viagens passou pela minha cabeça que, um dia, eu escreveria um livro passado em Lubljana'', diz. Pouco sabemos, no Brasil e em quase todo o mundo, a respeito da Eslovênia, uma das repúblicas resultantes da recente divisão da Iugoslávia, entre as quais a mais famosa é a Croácia, que a Copa da França acaba de apresentar ao mundo. Esse desconhecimento, porém, não o perturbou. No romance, Veronika, depois de ingerir os tranqüilizantes e enquanto espera a morte, põe-se a folhear uma revista. Encontra a publicidade de um jogo de computador que começa com uma pergunta: ''Onde é a Eslovênia?'' A mesma pergunta se repete, com ironia, na abertura de um artigo. Veronika decide, então, que o último ato de sua vida será escrever uma carta para a revista explicando que a Eslovênia é uma das cinco repúblicas resultantes da divisão da Iugoslávia. A carta será seu bilhete de suicídio - e concluirão, assim, que ela se matou porque uma revista não sabia onde seu país ficava. Enquanto isso, os motivos verdadeiros, que ela mesma não sabe nomear muito bem, serão esquecidos. O brasileiro PAULO COELHO pôde escolher a desconhecida Eslovênia como cenário de seu livro sem que isso fosse considerado um risco ou uma ameaça às vendas. Ele é, hoje, um cidadão do mundo e age como tal. Na semana passada, a reportagem de capa da revista semanal do Corriere della Sera foi dedicada a uma nova coleção de Gianni Versace inspirada no Guerreiro de Luz - um personagem de PAULO COELHO. Seus livros estão traduzidos em 39 idiomas. Ele já chegou às listas de mais vendidos de 18 países. Já vendeu 21 milhões de exemplares e está entre os 15 autores que mais vendem no mundo. O mundo é sua casa. No dia 20, PAULO COELHO embarcará para a Nova Zelândia, em seguida para a Austrália, depois para o Japão, logo depois para Israel e, por fim, vai à Iugoslávia. Tem de estar de volta ao Rio em 8 de outubro, porque já tem duas entrevistas marcadas: uma com a TV francesa, que está realizando um documentário especial sobre ele e deseja gravar parte das entrevistas no Rio, e outra com a TV alemã. Ficará poucos dias no País. Logo em seguida, ele viajará para o Leste europeu, onde já tem compromissos marcados na Polônia, na República Checa, na Eslováquia, na Eslovênia e na Bulgária. Por fim, antes de retornar ao Brasil para as festas de fim de ano, ainda vai à Finlândia e depois, a convite do Instituto Leon Tolstoi, à Rússia. PAULO COELHO continua multiplicando, de forma acelerada, sua influência em todo o planeta. Na tarde do domingo, ele concedeu ao Estado o privilégio da primeira entrevista sobre seu novo livro. A conversa, por telefone, levou quase duas horas. Minha longa lista de perguntas se mostrou frágil e, às vezes, inútil, pois Coelho fala como quem medita, enganchando as idéias umas nas outras, divagando, preferindo a intuição à ordem, exatamente como faz, e prega, em seus livros. Estado - Por que escrever um romance sobre a loucura? PAULO COELHO - Todas as pessoas que ousam fugir dos padrões vigentes, das normas espirituais, sexuais, políticas, são sempre olhadas com certo temor pela sociedade, que tenta sempre reintegrá-las ao status quo e domesticá-las. Entre as grandes ousadias de hoje está o esforço, cada vez mais intenso, para integrar a busca espiritual com o desejo de realização pessoal. Há uma ligação, não muito clara, é verdade, entre as duas coisas. Esse espírito de insurreição contra os padrões vigentes é muito comum entre os jovens. Mas depois, quando eles envelhecem, passam a temer o desconhecido e aí, ou entram para a universidade, para instituições mais estabelecidas, buscando o alívio do saber competente, ou caem no extremo oposto e se apegam aos dogmas, às seitas, o que é igualmente uma falsa solução. Estado - A saída estaria, então, na ''loucura controlada'' proposta em Veronika Decide Morrer? Coelho - Exatamente. Mas essa escolha do terceiro caminho ainda é muito pouco comum. É mais fácil ser simplesmente louco, cortar os laços com a realidade e fazer o que bem se entende. Já a ''loucura controlada'', que é o enlouquecer sem perder a posse sobre si, implica esforço, derrotas, erros, ferimentos, experiências que fazem parte da vida e das quais não temos como fugir. É o andar sobre o fio da navalha - e ninguém anda sobre ele sem se cortar, sem sangrar. Mas é o único caminho. Estado - Veronika inspira-se em sua experiência de juventude, quando você esteve internado na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio. Você chegou a pensar, em algum momento, em escrever uma autobiografia e não um romance? Coelho - Apesar de ter vivido a experiência da loucura num manicômio, eu logo percebi que não poderia escrever uma autobiografia, pois o PAULO COELHO de hoje, um homem de 50 anos, não poderia falar da experiência vivida por um rapaz de 17. Cheguei a pensar nisso, mas logo vi que seria impossível. Então, resolvi valer-me, mais uma vez, da ficção, e assim minha experiência está dividida entre os diversos personagens do livro e não concentrada apenas em Veronika. Estado - Você guardou muitas feridas dessas internações? Coelho - Sinceramente, não. As experiências de encarceramento que tive na adolescência não me deixaram marcas. Guardo, sim, marcas das duas prisões de que fui vítima aos 26 anos, por causa de meu envolvimento com a Sociedade Alternativa. A acusação formal foi a de que eu e Raul Seixas estávamos distribuindo panfletos da Fundação de Krig-ha, como nós chamávamos a sociedade. E esses panfletos foram acusados de subversivos. Fui preso por alguns dias, depois me soltaram para me prender novamente, dessa vez ''não oficialmente'' - na verdade, essa segunda prisão não passou de um seqüestro. Como fiquei desaparecido, eles tiveram mais argumentos ainda para afirmar que eu não passava de um louco. Essa, sim, foi uma experiência de terror, de que carrego as marcas até hoje. Estado - O controle do indivíduo descrito em Veronika Decide Morrer não seria uma experiência típica dos anos 60 e hoje em grande parte superada? Coelho - O controle hoje é mais sutil. Nos meus tempos de juventude, ele era mais claro. Nos anos 80, ele foi desviado para o corpo, para a fitness. Dizer que todos devem ser saudáveis, ter um corpo perfeito, freqüentar academias e buscar o mesmo padrão de beleza é uma forma de controle. É uma forma também de separar o corpo da alma. Depois veio a geração yuppie, que passou a ser controlada pelo modelo do homem bem-sucedido, o que foi também uma falsa liberdade. Tudo o que escapa ao controle social, ainda hoje, desperta o desejo de normalização. Mas é verdade também que as pessoas estão mudando, estão ficando mais lúcidas. Hoje elas não têm mais vergonha, por exemplo, de dizer que acreditam em Deus. Estado - A tecnologia, a informática, a Internet não multiplicam e fragmentam esses mecanismos de controle? Coelho - Creio, ao contrário, que a Internet é libertária. Na Internet você tem seu canal de TV, seu jornal, a home page em que você publica o que bem deseja. Você pode conversar, trocar idéias, discutir de uma forma anárquica e eu só vejo aspectos positivos nessa anarquia. A Internet só se tornará negativa se conseguirem submetê-la a normas rígidas, a um controle centralizado. Enquanto não for assim, ela é positiva e tem a vantagem de romper a solidão em que estamos jogados. Na Internet, as pessoas encontram a sua tribo. Costuma-se criticar a Internet com o argumento de que as pessoas se tornam viciadas. Quando eu descobri o sexo, eu também tinha vontade de fazer sexo dez vezes por dia. Mas depois isso passa. Estado - Você é considerado, hoje, um dos 15 escritores mais lidos no mundo. Qual é o segredo, afinal, desse sucesso que não pára? Coelho - Você quer saber por que os leitores se identificam com o que eu escrevo? Certamente não é por causa de minhas respostas. Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, eu não sou um guru. Eu sou um cara que faz as mesmas perguntas que elas fazem, não um sujeito que dá as mesmas respostas. As respostas são individuais. Mas as perguntas que fazemos hoje são as mesmas e precisamos dividir essa aflição. No momento em que você se sente sozinho, você se sente louco; quando você encontra um sujeito que faz as mesmas perguntas que você, ao contrário, você se sente bem melhor, ainda que continue a não ter respostas. Estado - O que é, afinal, a "loucura positiva" de que você fala em seu livro? Isso não é romantizar a loucura? Coelho - De modo algum. Meu livro é antidogmático. Tudo na vida tem seu avesso. Mesmo a busca espiritual tem, hoje, um grande perigo. A religião pode tornar-se fundamentalista e então levar o mundo a retroceder até a Idade Média ou pode ser uma busca aberta, com liberdade, e fazer o mundo avançar mil anos. Tudo na vida é uma faca de dois gumes. É sobre essa dualidade que trata Veronika Decide Morrer. Mas, com medo da dualidade, de se ferir com o fio da navalha, as pessoas preferem não pegar na navalha. Elas têm medo de se cortar e por isso caem na amargura. Estado - O que, exatamente, você chama de amargura, termo que percorre todo o livro? Coelho - Amargura é a paralisia, a letargia. Você pode seguir todos os caminhos e não se definir por nenhum ou pode não seguir nenhum e cair na letargia, na indiferença, na apatia. Nas duas opções, você está abrindo mão de escolher, de se arriscar. É o que está acontecendo hoje. Estado - No romance, uma das experiências por que Veronika passa para libertar-se é a aceitação do ódio. O que ela significa? Coelho - Oscar Wilde, que é um de meus gurus literários, dizia que a única forma de você escapar de uma tentação é cair nela. Se você reprime uma coisa, ela continuará o incomodando, envenenando-o e você estará sempre preso a esse veneno. Quando eu fiz meu segundo caminho espiritual, o Caminho de Roma, vivi pessoalmente essa experiência com o ódio. Escrevi sobre uma coisa que experimentei. Estado - Por que você escreveu sobre o Caminho de Santiago, mas nunca escreveu sobre o Caminho de Roma? Coelho - Quando eu fiz o Caminho de Roma, eu já tinha dois livros publicados, já era um escritor de sucesso. Então, viajei certo de que a viagem me renderia mais um livro. Para isso, tomei muitas anotações, desenhei mapas, tratei de registrar cada passo. Só que isso tudo, depois, me paralisou. Cheguei a escrever umas 50 páginas, que depois joguei fora. Tenho o hábito de jogar fora as coisas que não publico, para que depois não façam comigo o que têm o hábito de fazer com os escritores depois de mortos. Meu testamento, nesse aspecto, é específico: o que não estiver publicado quando eu morrer não será publicado jamais. Estado - E por que você ficou paralisado? Coelho - Foi uma viagem muito cheia de surpresas, durante a qual eu me vi numa mesquinhez total, me vi em contato com a maldade e fiquei muito assustado. Então, procurei minha guia e lhe perguntei: "Se eu vim até aqui para me purificar, por que estou me sentindo muito pior?" Ela me lembrou que, quando as luzes se acendem, temos de defrontar-nos com aranhas, monstros, todos os horrores que antes estavam escondidos e aquilo fazia parte do caminho. É essa experiência com a maldade, com o ódio, que agora eu transpus para Veronika. Estado - Qual é a rota do Caminho de Roma? Coelho - É uma rota nos Pirineus, que não tem nem início nem fim definidos e se forma por meio da intuição de cada peregrino. É um caminho meio circular, que volta sempre ao mesmo lugar, e quando você chega de volta ele já é outro. Enquanto o Caminho de Santiago é masculino, é em linha reta e desenrola-se no espaço, o Caminho de Roma é feminino, em círculos, e você o percorre em 70 dias guiado unicamente pelos critérios dos seus sonhos, sem nenhum outro roteiro. Estado - Por que Veronika Decide Morrer se passa na Eslovênia? Coelho - Não tenho a menor idéia. É a espontaneidade, e não o planejamento, que guia meus livros e por isso o projeto de escrever sobre o Caminho de Roma fracassou. Já estive duas vezes em Lubljana, a capital eslovena, mas já estive muitas vezes também em muitos outros lugares e nem por isso eu os escolhi. Quando você decide não planejar as coisas, você está jogando com o lado feminino que, em geral, ignoramos. Estado - Outro tema importante em Veronika é a importância conferida à consciência da morte. Você a considera de fato um elemento decisivo para a individuação? Coelho - A consciência da morte está um pouco mais presente hoje, com a aids, as novas pestes, mas ainda assim a maioria das pessoas a continua negando, a maioria ainda acha que quem morre é o vizinho. Você só vive integralmente se conserva a consciência de que essa encarnação vai acabar. Só assim saboreamos cada momento, que é de fato sagrado. Só assim temos coragem para dar os passos decisivos. Mas o hábito de separar o sagrado do profano é muito antigo, vem desde a Suméria. Se eu sei que vou morrer, e não sei como, e estou com vontade de telefonar para aquela pessoa que me parece tão inacessível, eu vou, telefono e estou pouco ligando para o que essa pessoa vai achar. A consciência da morte está diretamente ligada à consciência da vida. É isso o que, em meu livro, o Dr. Igor faz Veronika ver - mas, por favor, não vá contar aos leitores o desfecho do romance. Por que Veronika decide morrer? Simplesmente porque ela não tem consciência da morte. Se tivesse, optaria pela vida. Estado - A idéia da amargura e do tédio como os grandes males contemporâneos percorre todo o livro. Por que vivemos tempos tão cheios de desgosto? Coelho - O tédio toma conta das pessoas porque elas se sentem impotentes. Impotentes por quê? Ora, cada homem tem o poder que ele mesmo se confere. Há uma semana, eu estava andando pelo calçadão de Copacabana e vi um cara caído no chão. Eu já vi muitos caras caídos nas ruas de Copacabana, mas nesse dia eu cismei que não queria ver, enfureci-me e fui chamar a polícia. Quando cheguei ao posto policial, eu estava certo de que o policial ia reconhecer-me, ia saber que sou o PAULO COELHO. Isso, evidentemente, não ocorreu. "Você é alguma autoridade?", ele me perguntou, com má vontade. "Não, não sou", eu respondi. "Mas tem um cara caído no chão ali na frente e você vai tirá-lo de lá." E falei aquilo com tanta convicção, tanta autoridade, que o policial foi lá resolver. E por que ele foi? Porque você tem o poder que você se dá. E as pessoas, hoje, estão negando-se poder. Estado - Seria um surto de timidez coletiva? Coelho - Não é isso. Elas se negam o poder porque o poder implica responsabilidade. Mas as pessoas não querem arcar com esse preço, não querem ser responsáveis e preferem transferir o poder para o psicólogo, o guia espiritual, o guru... Estado - Preferem transferir o poder para o PAULO COELHO... Coelho - Só que isso não dá. Para começar, eu não tenho contato físico com as pessoas. Elas se limitam a ler meus livros e a ausência de contato físico é um empecilho para que essa transferência se realize. Se eu resolvesse dar cursos, fazer laboratórios, dar conselhos na televisão, abrir consultório, aí, sim, elas poderiam investir-me desse poder. Mas esse é um papel a que eu me recuso. Se eu fizesse isso, eu perderia a minha alma. A isso, até hoje, eu resisti. O que me salva é que me mantenho muito vigilante. Estado - Você foi recebido pelo papa, foi contemplado com a Ordem do Rio Branco pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, recebeu a medalha de Cavaleiro das Artes e das Letras do governo francês, é conselheiro de programas da Unesco, entre muitas homenagens importantes. Isso, certamente, fortalece o ego. Mas não sufoca? Coelho - Eu tenho tido tudo o que quero. Não posso reclamar de nada. Claro, sou um escritor profissional e tenho uma agenda de escritor profissional. E tenho de trabalhar, tenho de escrever. Recentemente, desejei ter, e tive, até um ano sabático, entre novembro de 1996 e outubro de 1997, um período em que eu só fiz o que me deu na cabeça, nada mais. Estado - E o que lhe deu na cabeça? Coelho - Eu fui à Polônia e minha editora me convidou para um jantar informal. Levou-me ao Café Bristol, no centro de Varsóvia. Aí eu disse: "Estou vivendo um ano sabático, só estou fazendo o que me dá na cabeça." E ela me perguntou: "E o que lhe está dando na cabeça agora?" Olhei para os lados, vi aquela agitação no café e respondi: "Eu queria trabalhar por uma semana como garçom neste restaurante." Para minha surpresa, ela chamou o gerente e, minutos depois, eu estava empregado. Durante uma semana, eu saía de meu hotel cinco-estrelas meio escondido e ia para o café trabalhar como garçom. Foi uma experiência muito rica. Quando viajamos, só costumamos visitar museus, monumentos, centros históricos, só visitamos coisas mortas! Mas eu, não. Eu estava trabalhando de garçom em um café polonês, estava experimentando a vida. Eu entendo as viagens assim. Entendi muito mais o que é o Japão cantando em um karaokê do que visitando um templo de Kyoto. Estado - Há o mito de que você escreve com grande rapidez, em verdadeiros surtos criativos. É verdade? Coelho - Eu escrevi Veronika Decide Morrer em dois meses, entre janeiro e fevereiro deste ano, em meu apartamento, no Rio. Já viajei para os Pirineus para escrever, já tentei refugiar-me em lugares românticos, mas isso comigo não funciona, pois eu não consigo concentrar-me. O essencial, para escrever, é ter a vida em torno de mim. Eu fico em casa, levo minha vida normal com minha mulher, atendo telefone, recebo fax, acesso a Internet e é assim, dentro de minha rotina, que produzo melhor. Existem dois mitos que eu não consigo entender: o do escritor que precisa refugiar-se numa montanha para criar e o do escritor que leva quatro ou cinco anos escrevendo um livro. Eu não consigo aceitá-lo. Seria o mesmo que um sujeito que precisasse de quatro ou cinco anos para ter um orgasmo. Quando escrevo um livro, eu escrevo sem parar. Mas preciso dos conflitos, dos telefonemas, das interrupções. Preciso da vida. Fico de cortinas fechadas, às vezes nem sei se é dia ou é noite. É uma entrega total. Só que não preciso abrir mão da vida para me entregar. E então aparece a inspiração, aparece a Eslovênia! Os personagens vão aparecendo, a Zedka, o Eduard, a Mari, o Igor e em cada momento um deles está no comando do livro e eu não sei explicar por quê. O livro vai impondo-se e só se realiza quando eu perco o controle sobre ele. Estado - O que há de experiência pessoal, além da internação em um asilo psiquiátrico, em Veronika Decide Morrer? Coelho - A vivência pessoal que transpus mais diretamente para o livro foi a experiência com a síndrome do pânico. Um dia, no início dos anos 70, eu estava em um cinema e, de repente, pirei. A experiência durou alguns minutos, mas foi muito forte e depois se repetiu outras vezes. Era um sentimento tão estranho que eu tinha medo de falar a respeito dele. Tempos depois, eu estava jantando em Nova York com uma namorada e, não sei por que, resolvi enfrentar o medo e falar. "Eu sei o que é isso", ela me disse, muito calma. "É estranhamento; eu também já tive!" Aquilo me aliviou muito, era alguém que aparecia para dar um nome e reconhecer o que eu estava vivendo. A partir dali, o pânico começou a passar. Estado - Veronika Decide Morrer parece ser mais um romance escrito por um psicólogo que por um místico. Você já fez psicoterapia? Coelho - Fiz psicanálise de grupo durante um ano, logo depois do último período de internação. Mas eu era muito jovem e fiz obrigado pela família, então não me parece ter funcionado muito. Não tenho sequer o hábito de ler sobre psicanálise, pois sou um homem muito concentrado no presente. Mas tenho respeito pelos psicanalistas. Estado - Por que a preocupação em ganhar leitores no Leste Europeu, que, aliás, já se esboça em Veronika Decide Morrer? Coelho - Os países do Leste Europeu nunca ousaram convidar-me para visitá-los, achando que eu não iria. Um dia, eu cheguei para a minha agente, Mônica Antunes, e disse: "Nós, aqui no Brasil, fazemos parte do clube dos excluídos. Os escritores mais importantes do mundo custam a nos visitar. Por que vamos agir da mesma maneira?" E pedi que ela sondasse se haveria um interesse, no Leste Europeu, pela minha visita. Imediatamente, os convites começaram a chegar. Antigamente, eu aceitava o jogo, mas agora tento ter uma atitude mais radical. Recentemente, exigi que meus livros fossem publicados na Índia e não importados da Inglaterra. Isso fez com que o preço de capa nas livrarias indianas baixasse de US$ 24 para US$ 1! Não quero dar uma de mocinho, mas realmente perder dinheiro não me importa, pois estou ganhando em dignidade. Estado - O que você tem feito para divertir-se? Coelho - Eu sou campeão de fliperama - e posso garantir
que isso nunca vai virar um livro. Na última vez em que estive
em Paris, um canal de TV chegou a me armar uma surpresa, só
para me testar. Levaram para o estúdio uma máquina
de fliperama e convidaram um dos melhores jogadores franceses para
enfrentar-me ao vivo. Não fiz feio, perdi a primeira partida,
mas ganhei a segunda. Eu mantenho a criança muito viva dentro
de mim.
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